Ainda um blog

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durante algum tempo, escrever na internet significou ter um blog. não como vitrine, mas simplesmente um blog. a palavra tinha alguma precariedade e, acho que por isso mesmo, alguma liberdade. não era preciso explicar antecipadamente a postagem de um texto longo, nem de uma singela frase. também se podia desaparecer por semanas e, de repente, voltar, je suis desolée, uma nova memória, uma irritação ou tédio. nem tudo precisava formar uma linha editorial, ser um conteúdo.

com as formas novas de estar online, isso mudou rapidamente. é preciso ser visível, converter atenção em números, e projetar. o texto foi sendo cercado por exigências que não pertenciam exatamente à escrita e tudo precisa, então, chegar no momento certo, caber num formato reconhecível, reter o leitor, provocar resposta. até a dúvida passou a precisar de boa apresentação. 

não há algo de exatamente nobre em resistir a isso, já que a nostalgia também pode ser uma forma de preguiça. blogs também tinha suas hierarquias e nunca foram espaços puros.  havia suas pequenas celebridades e disputas por relevância, suas ilusões de comunidade. e muita coisa escrita ali envelheceu mal ou só desapareceu. mas não me agrada quando passamos a tratar toda escrita publicada na internet como conteúdo.

conteúdo é aquilo que preenche um recipiente, que pode ser deslocado, cortado, adaptado, distribuído em partes, em um valor que depende menos da forma que adquire do que da capacidade de continuar circulando. mas tenho que o ensaio não é a apenas o que diz e por isso rema ao contrário. é um caminho que percorre para dizer, que, às vezes, tem no desvio um argumento e na hesitação a parte mais honesta do pensamento. há um intervalo socialmente aceitável entre um acontecimento e a declaração que devemos produzir sobre ele. quem se demora corre o risco de parecer alheia, ao passo que quem muda de ideia parece incoerente. há ainda quem fica pensando e acaba ocupando uma posição quase indecente. talvez por isso o ensaio me interesse.

o ensaio sabe que o pensamento começa incompleto e que também pode continuar incompleto depois de muitas páginas. ensaiar é testar uma relação entre coisas. uma frase de uma cineasta e a raiva de uma mulher; um romance e uma lembrança de infância; uma música e uma cena política – afinal, quem não relacionaria os tempos políticos que vivemos com uma trilha Pink Floyd ou System of a Down? evidente que isso envolve algum risco, já que associações podem não se sustentar e analogias podem produzir mais brilho do que verdade. talvez escrever seja, em parte, reconhecer os próprios truques antes que se transformem em método.

criei este espaço porque meus textos estavam espalhados. essa é a explicação prática. a dispersão não é apenas geográfica, já que cada lugar parece produzir uma versão de quem escreve. este blog nasce de querer juntar alguns cacos, ou ideias. digo blog porque gosto da palavra e porque ela contém uma modéstia que me interessa. é um blog porque será uma casa imperfeita.

não sei ainda o que este espaço se tornará. talvez seja cedo para anunciar seus temas, embora eu já os reconheça. cultura, memória, vida pública. literatura, cinema, artes, política, luto, raça, feminismo, prisão, música, imagens. as categorias servem para organizar o site, mas não significam um ordenamento do pensamento. 

a linguagem também precisa de lugares em que não esteja prestando serviço. não desejo fazer daqui um espaço de lentidão como virtude, já que esta também pode ser um privilégio. o problema não está na velocidade, mas na imposição de uma única temporalidade. algumas ideias chegam depressa, outras precisam conviver conosco antes que saibamos que eram ideias. e escrever pode ser uma forma de descobrir o tempo dessas coisas. mas também pode ser uma maneira de fracassar diante delas.

oensaio não elimina esse problema, mas pode torná-lo mais visível. me parece que um ensaio é uma tentativa, mas não uma tentativa irresponsável, já que a liberdade de não concluir não é licença para não pensar, muito pelo contrário. isso demanda acompanhar contradição. acho isso terrivelmente humano. estamos acostumados a imaginar que a força de uma ideia depende de sua consistência, mas não exatamente.  

essa talvez seja a primeira vantagem de um blog, porque não precisa começar com uma declaração de êxito e se apresentar tentativa. este é o Ensaísmos.

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Ama Ndlovu explores the connections of culture, ecology, and imagination.

Her work combines ancestral knowledge with visions of the planetary future, examining how Black perspectives can transform how we see our world and what lies ahead.