A roupa do poeta

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originalmente publicado em Substack

A moda decidiu que o poeta tem um guarda-roupa que inclui cardigãs, golas altas, rendas, gravatas frouxas, veludo cotelê, calças de alfaiataria retas, blazers que parecem herdados de um professor universitário melancólico (eu tive alguns exemplares como docentes) e bolsas capazes de carregar um volume de poesia, ou de A formação da Literatura Brasileira ou, até melhor, d’ A Odisseia (e uma tradução poética, por favor!), ainda que talvez carreguem apenas um telefone. O nome dado ao conjunto é poetcore.

Nas previsões de moda para 2026, o poeta apareceu como uma silhueta. A Revista Vogue identificou o poetcore nas passarelas por meio de punhos de renda, gravatas inspiradas no dandismo e formas românticas ou históricas; em outra formulação, a tendência se aproxima do chamado literary chic, composto de cardigãs, alfaiataria, saias lápis e uma vaga sugestão de vida intelectual. Livros já produzem mercadorias próprias, roupas, bolsas e objetos que permitem carregar publicamente o sinal de uma leitura.

Não acho que isso seja exatamente novo. A moda e a arte sempre tiveram relação, com a moda retirando imagens da arte e com artistas que sempre souberam que o modo de aparecer e se apresentar também participam de uma obra. Basta que a gente lembre de Oscar Wilde e João do Rio, para ter no ultimo um exemplar nacional. Ou até mesmo Virginia Woolf e seus vestidos, James Baldwin e seus ternos, óculos e cigarros entre os dedos com efeito arrebatador. Não tenho dúvidas de que Patti Smith não chegou à capa de Horses sem uma ideia de forma.

Seria simplista dizer que a roupa é falsa e o texto, verdadeiro, porque acredito que a roupa organiza, também, a maneiraa como um corpo entra numa sala, negocia com o gênero, cita uma época, reivindica uma linhagem. Podemos chegar a um livro pelo título de uma canção, pela adaptação ruim de um romance, por uma fotografia de alguém que admiramos segurando um volume que talvez nem tenha lido. O problema do poetcore não está em alguém vestir um casaco de tweed e escrever num caderno, mas em quando a roupa passa a oferecer, por um preço, aquilo que a escrita exige em tempo.

A vida intelectual tem sinais exteriores relativamente fáceis de reproduzir, podendo ser reivindicados livros empilhados, uma mesa de madeira, óculos de armação grossa, uma caneta-tinteiro, o silêncio de um café, a luz de fim de tarde sobre páginas anotadas. Não é preciso escrever para encenar a página em branco. Quando bem iluminda, a melancolia torna-se especialmente acessível.

Compre esta bolsa e pareça alguém que frequenta sebos, ou use esta camisa e adquira a sombra de uma vida contemplativa. Pode surgir como coloque um livro de poemas sobre a mesa e deixe que o objeto faça por você o trabalho social de sugerir profundidade. Há uma estética da menina que faz pão, embora fazer pão envolva calor, espera e uma cozinha que precisa ser limpa; há também um estética da vida rural sem lavoura, insetos ou distância de um hospital. Agora temos uma estética do poeta sem o trabalho menos fotogênico da poesia. Nenhum poeta que conheço vive como a imagem que o poetcore vende. Não conheço poetas atravessando os dias em capas de lã, escrevendo à mão em hotéis europeus enquanto alguma renda misteriosa paga o quarto. Mas, conheço escritoras que dão aulas, revisam textos, produzem relatórios, escrevem projetos, fazem traduções, organizam eventos, respondem mensagens profissionais no ônibus e tentam voltar ao próprio livro quando o trabalho que paga os boletos finalmente termina. E a clássica de pessoas que escrevem de madrugada não porque a noite seja poeticamente superior, mas porque foi o tempo que sobrou – caso dessa que vos escreve. Nada disso cabe bem numa tendência.

A precariedade não combina com a imagem romântica do poeta, daí o quarto pequeno se torna retiro, a falta de dinheiro se torna desapego, a solidão uma vocação, a exaustão se torna o brilho da intensidade e, desse modo, as condições que impedem uma pessoa de escrever são reembaladas como provas de que ela é escritora. As vezes, penso que a sociedade gosta de imaginar que o artista sofre por fidelidade à arte, como alma atormentada, como se o sofrimento fosse a força-motora. Bobagem. Na verdade, papo seríssimo. Talvez nenhuma atividade seja tão subestimada quanto a escrita porque quase todas as pessoas escrevem em seu cotidiano, em mensagens, relatórios, e-mails, recados. E, com isso, supõem o ofício, embora ninguém imagine que saber usar uma faca transforma alguém em cirurgião ou ninguém conclua, por conseguir cantar uma música, que poderia ocupar o lugar da intérprete.

Mas, vocês hão de concordar que, se escrever fosse apenas registrar pensamentos, teríamos Drummonds em cada esquina, Clarices em toda repartição, Machados em cada grupo de mensagens, Toni Morrisons preenchendo formulários administrativos. Mas esse é um ofício que não acontece por inspiração e sim por leitura, trabalho, atenção, repetição, fracasso, revisão e pelo aprendizado doloroso de que uma frase pode estar correta e ainda assim não estar viva. Não há imagem atraente para esse trabalho, tendo em vista que uma pessoa sentada durante horas diante de uma frase parece apenas uma pessoa sentada. O poetcore prefere o instante anterior, na ideia do café, da caneta, do livro aberto, da promessa de que algo será escrito.

Ainda assim, seria injusto concluir que toda presença pública da leitura é encenação. Há artistas pop cuja relação com os livros não termina quando a fotografia é feita, como, por exemplo, Florence Welch que participa há mais de uma década do Between Two Books, um clube surgido entre seus leitores e transformado numa comunidade de leitura ligada ao próprio universo de sua obra. Dua Lipa criou um clube que seleciona mensalmente livros, publica conversas com autores e constrói materiais ao redor de cada leitura; em 2026, passou também a ocupar espaços de curadoria literária, incluindo o London Literature Festival, onde entrevista Zadie Smith e Patti Smith. Entendo certa desconfiança diante de um mundo em que todos temos de ser múltiplos. Já não basta cantar e é preciso também ter uma plataforma, uma causa, um clube e a leitura pode pender a mais um capital cultural. Mas penso que a suspeita automática é também uma outra forma de preguiça.

Há diferença entre segurar um livro e construir meios para que outras pessoas o leiam; entre citar um poeta numa legenda e conversar longamente com uma romancista sobre a estrutura de uma obra; e, até mesmo, entre usar a literatura para adquirir profundidade e permitir que a literatura altere aquilo que se produz. Talvez seja essa a distinção que o poetcore apaga, justamente entre possuir sinais de interioridade e cultivar uma vida interior.

Uma vida interior não se mede pela quantidade de livros lidos nem pela dificuldade dos nomes mencionados. Veja, há pessoas capazes de citar bibliotecas inteiras sem que nenhuma leitura tenha perturbado a maneira como tratam os outros ou compreendem a si mesmas. Não podemos ser alices e achar que o hábito da leitura, por si só, torne alguém bom. Escrever tampouco. É claro que a literatura pode ampliar a imaginação moral, mas também pode oferecer uma decoração refinada para antigas crueldades. Seria ingênuo pensar que regimes autoritários não tiveram leitores ou que senhores de escravizados não possuíam bibliotecas. O valor da leitura talvez estejan em algo menos grandioso, numa possibilidade de desorganização.

No fundo, o poetcore talvez seja mais sobre o desejo de parecer alguém que ainda dispõe de tempo para prestar atenção, e isso não deve ser desprezado. Vivemos em uma cultura na qual compramos a imagem da concentração porque a concentração real foi expropriada por notificações, jornadas extensas, ansiedade, deslocamentos e trabalho sem limite claro. Talvez o sucesso do poetcore revele menos um desejo de escrever poemas do que um desejo de escapar, ainda que visualmente, da velocidade que organiza nossos dias.

Por isso, não acredito que seja preciso condenar quem participa da tendência. A crítica moral ao gosto quase sempre erra o alvo. Uma jovem usando renda e carregando Sylvia Plath não é responsável pela precarização do trabalho literário. O problema não é individual, mas sim sobre a facilidade coletiva com que celebramos a imagem da escritora enquanto recusamos as condições materiais necessárias à escrita. Queremos livros baratos, embora tradutoras, revisoras, diagramadores, capistas, editoras e autoras precisem viver. Convidamos escritores para falar porque sua presença confere prestígio, mas muitas vezes tratamos o pagamento como gentileza opcional. Repetimos que cultura é essencial e organizamos orçamentos como se fosse algo ornamental. Mas, no dia a dia, paga-se com o emprego paralelo, com a noite mal dormida, com o tempo retirado do descanso, com o cuidado doméstico realizado antes de abrir o arquivo.

No geral, o que se pensa é que um escritor escreveria de qualquer modo; e isso bem que pode ser verdade. Mas a vocação não pode ser uma argumento para reduzir o valor do trabalho. Talvez o manifesto necessário contra o poetcore não seja um manifesto contra as roupas, porque seria absurdo pedir que poetas se vestissem mal para provar sua sinceridade, além de falso. Escritores podem gostar de moda, luxo, aparência, tecido, ornamento, porque a austeridade não é sinal de profundidade (e agradeço Zadie Smith por essa troca).

Que livros compramos? Que bibliotecas defendemos? Onde compramos? Quanto pagamos pelo trabalho de quem escreve? Que tempo deixamos para que as pessoas possam ler? Que políticas garantem que a literatura não seja produzida apenas por quem já possui renda, herança, casa e silêncio? Penso que uma sociedade que deseja grandes escritores precisa permitir que escritores sobrevivam antes de serem grandes.

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Ama Ndlovu explores the connections of culture, ecology, and imagination.

Her work combines ancestral knowledge with visions of the planetary future, examining how Black perspectives can transform how we see our world and what lies ahead.